segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Pesquisa diz que 5 mulheres apanham a cada 2 minutos

Jornal "O Estado de S. Paulo"



Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo - São Paulo - em parceria com o Sesc projeta uma chocante estatística: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil. E já foi pior: há 10 anos, eram oito as mulheres espancadas no mesmo intervalo.
Realizada em 25 Estados, a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado ouviu em agosto do ano passado 2.365 mulheres e 1.181 homens com mais de 15 anos. Aborda diversos temas e complementa estudo similar de 2001. Mas a parte que salta aos olhos é, novamente, a da violência doméstica.
"Os dados mostram que a violência contra a mulher não é um problema privado, de casal. É social e exige políticas públicas", diz Gustavo Venturi, professor da Universidade de São Paulo (USP) e supervisor da pesquisa.
Para chegar à estimativa de mais de duas mulheres agredidas por minuto, os pesquisadores partiram da amostra para fazer uma projeção nacional. Concluíram que 7,2 milhões de mulheres com mais de 15 anos já sofreram agressões - 1,3 milhão nos 12 meses que antecederam a pesquisa.
A pequena diminuição do número de mulheres agredidas entre 2001 e 2010 pode ser atribuída, em parte, à Lei Maria da Penha. "A lei é uma expressão da crescente consciência do problema da violência contra as mulheres", afirma Venturi.
Entre os pesquisados, 85% conhecem a lei e 80% aprovam a nova legislação. Mesmo entre os 11% que a criticam, a principal ressalva é ao fato de que a lei é insuficiente.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

A mulher negra e a branca nas marchinhas de carnaval

Esta postagem está - com alguma pequenas modificações que fiz, agora, no livro, de minha autoria: "A musa sem máscara - Imagem da mulher na música popular brasileira", editora Rosa dos Tempos e Distribuidora RECORD de Serviços de Imprensa S.A
Pretendo daqui por diante expandir mais a minha análise sobre a temática abaixo já que estou screvendo nova edição revisada, ampliada e atualizada.



Louras, morenas, mulatas quem dá mais?

Uma temática muito particular entra em voga nas compo­sições de marchinhas e sambas, principalmente nos anos 40: a disputa musical, instituída por compositores/letristas, na intenção de promover qual a musa mais admirada por seus dotes físicos ou suas qualificações femininas, no conceito co­letivo do imaginário social.
Um sem-número de letras foram escritas com a intenção de acirrar a concorrência feminina pelo lado racial. Perfila­vam, desse modo, quem seria a melhor e mais interessante mu­lher, a que mais estivesse apta a satisfazer o gosto dos homens. Procuravam conjugar o amor físico (calcado na sexualidade) e o amor espiritual. Imaginavam uma beleza ideal, que reu­nisse, em seu conjunto, sensações agradáveis capazes de agu­çar a atração e a sedução de todos os homens pela mulher de cor negra ou branca, loura, morena, ruiva ou mulata.
No Brasil, essa rivalidade entre mulheres de pele branca e cabelos louros e as de pele escura e cabelos pretos foi uma herança dos portugueses, solidificada e agravada por conta de séculos de escravidão.
Conforme observa o antropólogo e sociólogo pernambu­cano Gilberto Freyre no seu livro Casa grande e senzala, ao se reportar à miscibilidade* nacional nos tempos do domínio colonial, "nenhum povo colonizador dos modernos excedeu ou sequer se igualou nesse ponto aos portugueses(...) O lon­go contato com os sarracenos deixara idealizada, entre os por­tugueses, a figura da moura encantada - tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual. Em oposição à tal lenda, acima citada, mas sem nunca alcan­çar o mesmo prestígio, desenvolveu-se a da moura torta. Nes­ta, transparecem o ciúme e a inveja sexual da mulher loura contra a de cor, e o ódio religioso dos cristãos louros contra os infiéis de pele escura. Ódio que resultaria mais tarde, em toda a Europa, na idealização do tipo louro, identificado com personagens angelicais e divinos, em detrimento do moreno, identificado com anjos maus, decaídos, malvados e traidores. (...) Pode-se afirmar que a mulher morena tem sido a preferi­da dos portugueses para o amor, pelo menos para o amor fí­sico. A moda da mulher loura, limitada aliás às classes altas, tem sido antes a repercussão de influências exteriores do que a expressão de genuíno gosto nacional: 'branca para casar, mu­lata para f..., negra para trabalhar', ditado em que se sente ao lado do convencionalismo social da superioridade da mu­lher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual pela mulata."
As marchas e sambas expõem, então, descaradamente a persistência da discriminação racial que se agrava quando aliada ao gênero feminino. Constantemente puseram na ordem do dia a rivali­dade racial entre pretas, brancas, morenas e mulatas, de forma bem estereotipada, eviden­ciada principalmente na década de 30 e dando prosseguimento pelas décadas de 40 em diante. Isto como conseqüência da inter-relação musical dos compositores brancos e pretos. Juntos, eles exploraram ao máximo essa antiga “rivalidade fe­minina” ainda reinante e que não passa de uma construção sócio-cultural no Brasil daquele tempo que ainda trazia bem forte o ranço da sociedade escravocrata que durou em termos legais até 13 de maio de 1888 – se é que podemos considerar a farsa jurídica da abolição da escravatura ante a promulgação da Lei Áurea. A população negra continua, de fato, explorada e oprimida por décadas e décadas seguidas à frente, durante o século 20.
Musicalmente aconteceu apenas o fato de haverem exposto a miscigenação de forma preconceituosa e discriminadora, usando a mulher como veículo eternizador dessa situação de desnivelamento de raças.
Os homens conseguiam — ao menos aparentemente — se confraternizar no mesmo espaço artístico, medindo talen­tos, mas faziam da mulher bucha de canhão nas batalhas do preconceito racial, disfarçado pelo hedonismo exagerado dos concursos de beleza.
Instaura-se, então, um leilão musical onde quem era oferecida como brinde, a ser rematado no final, era a figura considerada com mais predicados fe­mininos, em versão loura ou morena, regateada pela lei misógina de um mer­cado ultra racista e super-machista onde as preferências demandada pela mulher branca como um “bem de consumo requintado” que o homem gostaria de possuir era explicitamente mencionada, mas em função da escassez de oferta a mulher negra passava a ser a mulher atraente e sedutora, opção calcada em conceitos culturais preconceituosos como a letra da música abaixo justifica sem nenhum constrangimento:


Se por acaso, o amor me agarrar
Quero uma loura pra namorar
Corpo bem-feito, magro perfeito
E o azul do céu no olhar
Quero também que saiba dançar
Que seja clara como o luar.
Se isto se der, posso dizer
Que amo uma mulher.
Mas, se uma loura eu não encontrar
Uma morena é o tom
Uma pequena, linda morena
Meu Deus que bom!
Uma morena é o ideal
Mas lourinha não era mal
Cabelo louro vale um tesouro
É um tipo fenomenal
Cabelos negros têm seu lugar
Pele morena convida a amar
Que vou fazer?
Ah, eu não sei
Como é que vai ser
Ai, as mulheres
Que desespero de amor
É a lourinha e a moreninha
Meu Deus que horror! (1)


A mulata, como não poderia deixar de ser, era figura im­prescindível dos pregões, com todos os qualificativos e predicados identi­ficadores da "feminilidade negra" a que ela deveria fazer jus:


Quem dá mais
Por uma mulata
Que é diplomada
Em matéria de samba
E de batucada,

Com as qualidades
De moça formosa,
Fiteira, vaidosa
E muito mentirosa? (2)


Inicia-se musicalmente um concurso macabro, onde a tor­cida é incentivada a eleger qual mulher deve receber "grau dez" para assumir o título de "rainha de cabeça aos pés". Qual delas seria a mais indicada, pelos atributos físicos, para proporcio­nar prazer à maior parte dos homens? Nesse tempo os con­cursos de beleza começam a chamar atenção, com divulgação maciça nos meios de comunicação. E com o incentivo que as revistas femininas, em plena proliferação, davam às suas lei­toras, designadas como "belo sexo". No cômputo geral das letras encontradas, incontestavelmente a vitória predominan­te é da morenidade:


A vitória há de ser tua
Tua... tua...
Moreninha prosa!
Lá no céu a própria lua
A lua... a lua
Não é mais formosa!
Rainha da cabeça aos pés
Morena eu te dou grau dez!(3)

As louras ficam em desvantagem, somente porque são con­sideradas coisa rara num país de mestiços. Muito lisonjeadas em relação às outras, são fortes concorrentes ao título de rai­nha de beleza, nos escrutínios realizados durante o período carnavalesco:


Lourinha, lourinha
Dos olhos caros de cristal
Desta vez, em vez da moreninha
Serás a rainha do meu carnaval
Loura boneca
Que vens de outra terra
Que vens da Inglaterra
Que vens de Paris
Quero te dar
O meu amor mais quente
Do que sol ardente
Deste meu país

Linda lourinha
Tens os olhos tão claros
Deste azul tão raro
Como o céu de anil,
Mas tuas faces
Vão ficar morenas
Como das pequenas
Deste meu Brasil. (4)

A mulata, já nesse tempo, leva vantagem pelo "rebola­do", definido como agente provocativo e aguçador do desejo sexual masculino:


Branca é branca
Preta é preta
Mas a mulata é a tal
(É a tal)

Quando ela passa
Todo mundo grita oba
Estou aí nessa marmita**
Quando ela bole
Com os seus quadris
Eu bato palma e peço bis
Ai, mulata cor de canela
Salve, salve, salve, salve
Salve ela! (5)

Em meio a todo esse fetichismo, cada mulher se sobres­sai como a melhor, a mais bela ou a "boa", conforme a cor de sua pele. Essa era a forma de adequá-las, dentro dos pre­ceitos básicos do mercado sexual, numa sociedade que come­ça a conviver com o consumismo resultante dos valores de compra e venda, instituídos pelo regime capitalista em plena ascensão no país.
Elas não passam de artigos expostos nas prateleiras, e sua finalidade é apenas, serem adquiridas para uso e desfrute masculino. Valem o quanto medem e pesam, incluindo-se no preço o design multicor das embalagens:


O tipo louro
Vale um tesouro
Mas perto do moreno
É "café pequeno"
Enquanto eu tiver
Olhos pra enxergar
Boca pra gritar
Hei de ter opinião
Não é qualquer mulher
Que consegue dominar
Meu coração
O tipo escuro
Não dá futuro
É capital parado
Que não rende juro
O tipo claro
É muito raro
Mas vende pouco
Porque custa caro.(6)


Um detalhe singular, relacionado à temática da miscibilidade, observa-se a partir de 1937 (durante a vigência do Es­tado Novo), quando Getúlio Vargas fechou o Congresso e instalou-se ditatorialmente no poder.
Nos caminhos percorridos pela nossa música popular verifica-se uma tendência, bem nos moldes retóricos da exaltação patriótica, de um "Brasil brasileiro/terra de samba e pandeiro".
Em 1939 é lançada a música Hino do carnaval brasileiro, integrando as mulheres em geral aos outros bens de produção genuinamente nacionais. A mulher brasileira é elogiada entre as riquezas e belezas territoriais emanadas de um ecossistema onde a vegetação é fértil. Comparadas a atividade agrícola do país a qualidade de cada mulher é medida no conjunto dos produtos agrícolas em função da colheita anual. Nesse cultivo, mulher não é gente; é safra:


Salve a morena!
A cor morena do Brasil fagueiro
Salve o pandeiro!
Que desce o morro pra fazer marcação...
São, são, são, são
Quinhentas mil morenas!
Louras cor de laranja com mel...
Salve salve! Meu carnaval
Brasil!
Salve a lourinha!
Dos olhos verdes cor da nossa mata...
Salve a mulata!
Cor do café na nossa grande produção!...
São, são, são, são
Quinhentas mil morenas!
Louras cor de laranja com mel...
Salve salve!
Meu carnaval
Brasil!(7)




*Miscibilidade: qualidade do que tem possibilidade ou facilidade de se misturar.
** Marmita é um recipiente onde se transporta a refeição para ser comida.

ÍNDICE DAS LETRAS CITADAS

01 – Loura ou Morena – Vinícius de Moraes / Paulo e Haroldo Tapajós – 1932
02 – Quem Dá Mais – Noel Rosa – 1932
03 – Grau Dez – Ary Barroso / Lamartine Babo - 1935
04 – Linda Lourinha – João de Barro – 1934
05 – A Mulata é a Tal – João de Barro / Alberto Ribeiro – 1948
06 – Tipo Sete – Nássara / Alberto Ribeiro – 1934
07 – Hino do Carnaval Brasileiro – Lamartine Babo – 1939

terça-feira, novembro 16, 2010

Uma análise das relações de gênero na educação diferenciada


Brinquedo de Menina

Nikelen Acosta Witter *



O título aqui poderia ser também a já famosa frase: “sim, nós podemos”. Não a dita pelo presidente norte-americano Barack Obama. Mas a dita pela presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, a uma menina de 9 anos que lhe perguntou se mulher podia ser presidente da República. Ah, sim menina, nós podemos. Eu mesma lhe diria mais. Diria para que incluísse isso em suas brincadeiras. Uma hora você finge ser professora, noutra médica, veterinária ou advogada. Se quiser ser juíza, delegada ou polícia também pode. É claro que terá vezes em que você irá querer ser princesa ou uma bruxa muito inteligente, mas, acredite, nada no mundo pode impedir você de querer ser presidente da República.
Pode soar estranho que uma menina, em pleno século XXI, apresente uma dúvida assim. Mas, a verdade, é que esse estranhamento está longe de poder ser generalizado. Basta pensarmos na quantidade de manifestações machistas durante essa campanha presidencial, e teremos um quadro do quanto as possibilidades ainda se apresentam restritas, para o próprio entendimento das meninas. E, acredite, não estou falando apenas sobre aquelas que vivem nas periferias, nos bolsões de miséria, nas que catam comida e recicláveis nos lixos ou caminham quilômetros para poderem abastecer de água suas casas. Estou me referindo às garotinhas de classe média e alta, que estudam em boas escolas (públicas ou particulares), que tem acesso a livros e que escolhem seus brinquedos pelos comerciais que veem na TV.
É justamente nestes espaços de consumo que, ao que parece, uma ativa parte da nossa cultura tem trabalhado para que nossas meninas continuem expostas ao machismo atávico que grassa pelo Brasil. Os limites aos sonhos das garotas entram nas nossas casas mesmo que a gente não queira. Eles estão lá, o tempo todo, dizendo o que é aceitável para uma menina e negando, ao mesmo tempo, que os sonhos delas sejam sem fronteiras.
Estou exagerando? Tem certeza? Você tem prestado atenção nos filmes publicitários veiculados na TV (inclusive nos canais infantis pagos)? Será que ninguém percebe o absurdo de um brinquedo ser uma pia de lavar louças cor-de-rosa que se anuncia: “igualzinha a da mamãe, só que mais divertida”! Qual palavra desta frase não lhe parece ofensiva? A mim todas. E adicione aí o fato de que o comercial não tem meninos. Sim, porque no mundo encantado e cor-de-rosa os meninos sabem que seu lugar não é lavando a louça, mas lavando carro no lava-jato que é igual ao que o papai usa.
Como, pergunto, nossas meninas não vão crescer duvidando que uma mulher possa ser presidente? É difícil achar que uma coisa assim é possível quando, para os “reclames”, veiculados junto com seu desenho favorito, as únicas perspectivas para uma mulher parecem ser uma pia cheia de louça e criar bebês que comem, arrotam, ficam doentes, fazem xixi e cocô? Sim, estas são bonecas que, na maior, parte do tempo são oferecidas a elas. As bonecas que “imitam” a realidade. E você, mamãe, deve comprá-las para que sua filhinha “aprenda brincando”. Afinal, o que seria mais importante para uma futura jovem mulher do que aprender a ser uma boa dona-de-casa, que sabe o melhor sobre alimentação, puericultura e higiene?
Ora, a maternidade é uma coisa maravilhosa, e ser dona ou dono de casa é uma necessidade que não tira nenhuma dignidade de quem faz somente isso. Não haveria problema com os comerciais se eles fossem apenas um ou dois e se o texto fosse menos limitante das capacidades femininas e masculinas. Mas a questão é que as crianças são bombardeadas com brinquedos e textos publicitários cuja intenção parece ser “aliciá-los” (a palavra é forte, mas é essa mesma) para ocuparem os papéis tradicionais da família burguesa ocidental. O fato de não haver grandes manifestações contrárias a este tipo de comercial é preocupante. Já pensaram que pode ser porque, no fundo, as os textos estão é fazendo eco às coisas que não questionamos por parecerem “naturais”? Meninas brincam de cozinhar, lavar louça e cuidar de bebês. Meninos lavam carros, jogam futebol e vídeo-games. Os brinquedos continuam a ser elaborados e vendidos de forma sexista, é assim que nós os compramos, e é assim nossos filhos os absorvem.
Imagino que se alguém se colocar contra isso, vão dizer que a pessoa está clamando pela censura ou sendo preconceituosa com bonecas-bebês e brinquedos que imitam utilidades domésticas. Por isso quero deixar bem claro que não acho que as bonecas em si estão erradas. O que me incomoda é o texto com o qual elas são apresentadas e o subtexto que, ao invés de incitar as meninas a desejarem o mundo, sugere que o paraíso está em ter uma cozinha super equipada.
Por outro lado, não estou fazendo um tipo de apologia que diz que o mundo seria melhor com mais mulheres no comando. Não considero que as mulheres que exercem cargos públicos (ou que venham a desejar isso) façam, por serem mulheres, governos melhores que os dos homens. A quase ex-governadora do Rio Grande do Sul é um exemplo de que um governo ruim e autoritário pode vir de qualquer lado.
Minha oposição é contra tudo o que se organiza de forma a limitar os sonhos e os horizontes das crianças. Um fogãozinho pode ter meninos figurando no comercial (muitos meninos se interessam por cozinhar). E também a pia poderia ser vendida para eles, pois é igual a que todo mundo tem em casa. Em outras palavras: a pia não é da mamãe. Se as coisas continuarem nesse caminho, logo teremos organizar defesas para a Barbie. Afinal, os machistas de plantão ainda não se deram conta de que ela, embora fútil, sempre foi uma profissional. Ela namorou o Ken por 40 anos antes de eles terminarem o relacionamento. E agora, dizem que ela foi vista saindo com Max Steel. Garanto que logo vai aparecer alguém falando que ele é jovem demais para ela e que, aos cinquenta, ela deveria era aprender a fazer geléia.


*professora e historiadora

domingo, novembro 07, 2010

IMPERDÍVEL

www.audiovisualmulher.com/


























domingo, outubro 31, 2010

AÇÃO MULHER - IV FESTIVAL DO AUDIOVISUAL


Histórico
Idealizado pela escritora, produtora cultural e feminista Maria Áurea Santa Cruz, em parceria com a REC Produtores, o Ação Mulher - Festival do Audiovisual teve sua primeira versão em 2003, na cidade do Recife, sendo o primeiro no gênero a ser realizado no país com uma programação voltada para a produção de cineastas brasileiras.
No ano de 2004, o Festival foi reeditado acontecendo nos dias 08, 09 e 10 de março. Nos anos de 2005, 2006 o Ação Mulher foi interrompido com a ida da produtora Maria Áurea para uma temporada de dois anos na cidade de Nova York. A terceirção do Ação Mulher ocorreu nos dias 16, 17 e 18 de junho de 2008. Foram ministradas três oficinas para mulheres do meio popular e jovens em vulnerabilidade social.
Depois de cumprir três edições voltadas para valorização e divulgação de iniciativas culturais de mulheres brasileiras realizadoras na área do audiovisual, agora em 2010, o Ação Mulher - IV Festival do Audiovisual amplia sua programação e estende suas fronteiras para além do Brasil.

MOSTRA COMPETITIVA

Em sua quarta edição, o Festival do Audiovisual Ação Mulher promove a 1ª Mostra de Vídeo e Curta Metragem para cineastas e produtoras de audiovisual.

As inscrições estarão abertas até o dia 19 de novembro
VISITE NOSSO SITE: www.audiovisualmulher.com

segunda-feira, junho 14, 2010

MARISTELA JUST – JUSTIÇA FOI FEITA!






Em 4 de abril de 1989, no município de Jaboatão dos Guararapes, Maristela Just, uma jovem mulher, cheia e vida, com plena aspiração e expectativa de realizar um futuro promissor – faltava pouco para formar-se em sociologia – foi barbaramente assassinada com três tiros pelo ex-marido, na frente da filha Nathalia de 4 anos e do filho Zaldo de 2 anos, da maneira mais torpe que se possa imaginar. Acontece, que as crianças além de terem sido testemunhas ocular do crime foram vítimas do próprio pai que, não satisfeito, continuou atirando contra a própria filha Nathalia que foi atingida no ombro e, também no filho mais novo Zaldo, que levou um tiro na cabeça, além de voltar a arma contra o cunhado Ulisses quando ele tentou socorrer a irmã, sobrinha e sobrinho.
Dessa tragédia sinistra em que Maristela, faleceu, a filha e o filho, sobreviventes ficaram, até hoje, com seqüelas não só físicas, como emocionais.
Mas, essas crianças que cresceram órfãs, sem nunca esquecerem tudo porque passaram todos esses anos, desde aquele dia quando perderam a mãe e tiveram que conviver com tão triste realidade: o carrasco da mãe ser o próprio pai e, ainda por cima, nunca ter pago pelo crime cometido ao ver o julgamento sendo estendido anos a fio, resolveram tomar uma decisão. Iriam envidar todos os esforços para o julgamento não ser mais adiado e que a justiça, fosse feita com a condenação do acusado por todos os crimes cometidos.
Enfim, depois de 21 anos, viram perante o tribunal de júri o processo resultar numa ação condenatória 79 anos para José Ramos Lopes Neto, o assassino de Maristela Just, que até esse momento em que estou postando o fato acontecido neste blog se encontra foragido.No entanto, Nathalia e Zaldo continuam na esperança de que “o bandido” que matou a mãe seja preso e cumpra toda a pena na prisão.
Para isso fizeram um site onde continuam a lutar para a justiça ser cumprida integralmente.
Posto aqui a carta do filho da vítima – Maristele Just, logo depois do julgamento acabar quando saiu o anúncio da condenação do réu, atualmente, procurado pela justiça para que cumpra a pena recluso em uma cadeia:


Mãe,
Hoje por incrível que pareça, é o dia mais feliz de toda minha vida, pois depois de longos 21 anos de manobras, procrastinagens, dor, mágoa, tristesa que envolve a familia JUST, conseguimos com que a JUSTiça fosse feita, tudo bem mãe, foi duro, foi dolorido passar todo este tempo impune, calados tendo de aguentar toda essa impunidade que é a JUSTiça brasileira mãe, mas este dia de hoje, como já falei, é o dia mais feliz de minha vida, pois foram esses exatos 21 anos de aguardo, de medo, de angustia, que fizeram com que eu e Nathalia crescessemos fortes e maduros o suficiente pra ter forças bastante para podermos gritar por você mãe. Foram esses 21 anos que a familia da gente se fortaleceu junto a tudo e todos. Mâe, na época do fato mãe, eu tinha apenas 2 anos e 9 meses, acho que foi algum milagre de Deus que fez com que eu não morresse mãe, porque acredito que era para eu estar vivo hoje, eu tenho algum propósito aqui na Terra mãe, e este acredito eu, que seja fazer nossa JUSTiça, assim estando hoje junto com todos os familiares gritando por você la no julgamento de seu assasino. Mãe, não pude ter minha vida ao seu lado, porém guardo por toda minha vida você em meu coração e em meus sentimentos, vejo você em meus álbuns de fotografia...E mãe, como Nana mesmo disse em entrevistas passadas, você fez de tudo que podia enquanto teve tempo de estar conosco, aproveitou todos os momentos que podia, fez nossas fantasias de carnaval, festas de aniverssario, acho que, você naquela época já imaginava que não poderia estar conosco durante toda nossas vidas, fazendo assim o maximo de proveito de nossa companhia.Mas mãe, eu e Nana conseguimos mãe, contra tudo e contra todos, esse tempo todo estávamos lutando, fazendo de tudo que estava ao nosso alcance para que essa justiça fosse feita. Hoje mãe, dia 1° de junho de 2010 , pois é, precisou que seus filhos que você tanto ama, cresceçem e precisaram se expor para que essa JUSTiça fosse feita. Estou muito feliz hoje, muito mesmo; eu junto com toda nossa família, que nos acolheu com um carinho importantissimo. Eu e Nana hoje em dia brincamos,dizendo que perdemos você naquele dia, mas ganhamos mais 5 mães, todas da família hoje são nossas mães, mas infelizmente a minha ‘’original’’ eu não tenho mais. Pois é, eu gostaria tanto, mas tanto de poder conviver toda minha vida com você, ter todos os momentos importantes e menos importantes de minha/nossas vidas juntos, porém seu assasino não deixou mãe, pois, ele tinha inveja de você, pois você era uma mulher linda, bondosa, carismática, não queria o mal de ninguém, pois é mãe, a inveja e muito grande, faz muito mal, e mata! Foi esse mal que fez com que seu assasino, que não gosto nem de citar o nome dele, te levasse mãe, mas podes ter a total certeza deste mundo que estarás sempre viva em meu coração.Mãe, estou aqui agora nesse momento com Nana aqui no quarto mãe, e estamos extremamente felizes por esta JUSTiça ter sido feita, é mãe, a justiça do homem tardou mas não falhou, e hoje seu acusado foi setenciado, 79 anos de reclusão, eu ainda acredito que seja pouco pelo tudo que ele fez e vem fazendo por todos esses 21 anos, que junto com o pai, fez de tudo para que esse seu julgamento nunca ocorresse, porém nossa familia com muita garra e muita luta conseguiu fazer com que todos nós saíssemos premiados com tal sentença. Sabemos que não é o fim, AINDA.
De seu filho,
Zaldo Just Neto

sexta-feira, maio 21, 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

terça-feira, maio 18, 2010

MULHERES AFRICANAS INDICADAS PARA O NOBEL DA PAZ - 2011


Acesse o site http://www.noppaw.org/ e saiba como assinar a petição online.

sexta-feira, abril 16, 2010

Não deixem de assistir ao filme e ao debate


DIREITOS HUMANOS EM TELA

Tortura Contra Mulher na Ditadura Militar


O filme da cineasta Lucia Murat aborda a tortura durante o período de ditadura no Brasil, mostrando como suas vítimas sobreviveram e como encaram aqueles anos de violência duas décadas depois. "Que Bom Te Ver Viva" mistura os delírios e fantasias de uma personagem anônima, interpretada pela atriz Irene Ravache, alinhavado os depoimentos de oito ex-presas políticas brasileiras que viveram situações de tortura. Mais do que descrever e enumerar sevícias, o filme mostra o preço que essas mulheres pagaram, e ainda pagam, por terem sobrevivido lúcidas à experiência de tortura.
A professora Rosalina Santa Cruz é uma dessa mulheres torturadas que aparece no filme e participa como debetedora juntamente com a cineasta Lucia Murat desse Ciclo de Debate


quarta-feira, março 17, 2010

Recebí do vereador Luciano Siqueira - repasso neste blog

A Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara Municipal do Recife, através do seu presidente Luciano Siqueira, convida você a debater as condições de trabalho da mulher no Recife na Audiência Pública “Mulher, por igualdade de oportunidades no Trabalho”, a ser realizada no próximo dia 23 de março, terça-feira, às 9 horas, no Plenarinho da Câmara.

Para este evento, estão convidados a compor a mesa:
• Rejane Pereira - Secretária Especial da Mulher
• José Bertotti - Secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia
• Betânia Ávila - Integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM-PE) e do Núcleo de Reflexão Feminista sobre o Mundo do Trabalho
• Márcia Ramos - Coordenadora da UBM – União Brasileira de Mulheres em Pernambuco

Contamos com a sua presença.

sexta-feira, março 12, 2010

Secretaria Especial da Mulher Caruaru Urgente Morte de Luiza‏

Ontem, a convite da Secretaria da Mulher de Caruaru, fui participar como palestrante nas atividades programadas para o dia 8 de março. Discorri sobre a seguinte temática: “A mulher na cultura”.
Aproveitei o trabalho que realizo tendo como mote a MPB e, centrei a explanação, nas músicas que induzem A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.
Qual não foi a minha consternação e revolta quando, ao voltar hoje e abrir o meu e-mail, ler a notícia que segue, a qual, com toda indignação, transcrevo abaixo:



"Companheiras e companheiros é com muita tristeza e pesar que informamos a todas e todas militantes e dirigentes amigos e amigas do MST, que hoje a tarde foi assassinada a companheira Luiza. Uma das mais combatentes e aguerridas dirigentes do MST, membro da direção estadual de Pernambuco e coordenadora da regional Mata Norte.
Luiza Ferreira, 52 anos, mãe de 05 filhos e avó de 7 netos, foi assassinada, quando realizava uma assembléia no assentamento Margarida Alves, no Município de Aliança, onde era assentada. O assassino, foi seu ex companheiro (Pelé) durante 8 anos. Depois de cometer o assassinato se suicidou no mesmo local. O crime passional ocorreu por ciúmes da ex-companheira e porque impôs a companheira Luiza, no inicio deste ano, quando ela foi convocada pelas bases e pelos militantes da região para que assumisse a coordenação da regional do MST. Diante da imposição: Que optasse entre a tarefa política da direção do MST ou o casamento. Ela optou pela tarefa política, que infelizmente custou a sua vida.
Companheira Luiza entrou no MST, como acampada, na ocupação do Engenho Bonito, em Condado, em abril de 1996, no próximo 21 de abril vai completar 14 anos de acampamento, que infelizmente até hoje o INCRA não conseguiu a desapropriação do engenho. Foi durante 06 anos membro da direção estadual do MST, um dos principais quadros da frente de massa do Movimento. Apesar de ser professora, antes de se encontrar com o MST, foi como Mobilizadora de Massa que se tornou uma grande dirigente.
Nos últimos 04 anos, pediu para ficar no assentamento, onde era presidente da cooperativa do assentamento, para cuidar do marido, dos filhos e dos netos, como dizia ela “dar uma ajeitada na vida”. No inicio de fevereiro deste ano, Luiza perdeu seu filho, o Dinho, que também era militante do MST, e que há dois anos sofreu um acidente de moto e ficou inválido. Durante os dois últimos anos, Luiza dedicou sua vida a acompanhar e a lutar pela vida de seu filho que depois de muito sofrimento não resistiu.
Luiza durante a sua vida de militante enfrentou os dois grupos de usineiros mais violentos do estado. O grupo Pessoa de Melo da Usina Aliança e o Grupo João Santos e depois de muitas tentativas de assassinato e ameaça constante pelos usineiros acabou sendo vitima da arrogância machista.
O sepultamento da companheira vai ser realizado nesta sesta feira às 4 horas da tarde e o velório vai estar no acampamento Bonito.
Que Luiza, que durante a sua vida foi uma verdadeira Guerreira, continue inspirando e motivando a nova geração de militantes com sua garra, energia e paixão pela Luta
Jaime"

sexta-feira, março 05, 2010

Comemoração do Dia Internacional da Mulher


LANÇAMENTO LIVRO
Mulheres Que Mudaram a História de Pernambuco
Autor: Carlos Cavalcanti

OI gente, estou sendo homenageada, juntamente com outras mulheres pernambucanas, no livro “Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco" que será lançado no dia 5 de março por ocasião das comemorações do dia "8 de Março". Gostei do reconhecimento porque é uma missão que abracei desde a década de 70, quando abriguei na minha casa o primeiro grupo feminista do Nordeste - "Ação Mulher" do qual fui uma das fundadoras. Beijos, Maria Áurea


Centenário do “Dia 8 de Março”
Dia Internacional da Mulher

Em 8 de março de 1857, houve a primeira greve nos Estados Unidos gerida somente por mulheres tecelãs. As operárias da fábrica de tecidos “Cotton - Nova Iorque”, decidiram em assembléia, paralisar os trabalhos, na reivindicação do direito à jornada de 10 horas (a carga horária diária de trabalho delas era de16 horas) e melhores condições de trabalho.
Os proprietários da empresa utilizaram então, dos seus poderes absolutos, para acionar a força policial, a fim de debelar a manifestação daquelas trabalhadoras do setor têxtil.
O modo usado para reprimir o movimento foi feito de maneira tão violenta que, as operárias viram-se forçadas a refugiarem-se dentro da fábrica, na tentativa de se defenderem da truculência policial.
Aproveitando-se disso, trancaram-nas no local e atearam fogo no prédio fabril. As 129 tecelãs que lá estavam – covardemente presas por seus algozes – não conseguiram escapar do incêndio. Morreram todas carbonizadas, marcando assim, uma das páginas mais trágicas da luta das trabalhadoras em Defesa dos Direitos Humanos das Mulheres.

Em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres, realizada na Dinamarca, foi sugerido como homenagem a essas mártires do inicio do século 20, operárias de Nova Iorque, assassinadas por lutarem pela igualdade de direito entre os sexos e pela busca de uma cidadania PLENA para as mulheres, que o dia 8 de março fosse declarado Dia Internacional da Mulher .Mas, só a partir de 1975 esta data começou a ser comemorada no mundo inteiro, quando a ONU declarou a década de 75 a 85 como a década da mulher. Logo após, em 1977, a Unesco reconhece oficialmente o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, em homenagem às 129 operárias queimadas vivas.
O dia serve para reafirmar a cada ano que nenhuma das nossas lutas foi em vão. Por isso precisamos e devemos continuar essa trajetória de combate em combate na ação afirmativa contra o machismo, o racismo e o lesbofobismo.


NADA FOI EM VÃO!
É ISSO QUE NOS FAZ NÃO ESMORECER NUNCA, JAMAIS!
CONVITE
O presidente da CNI (Confederaão Nacional da Indústri), Armando Monteiro Neto; o presiente da UBE-PE, AlexandreSantos; opresidente da Fundação Nilo Coelho, Geraldo Coelho; a presidente do Fórum de MulheresAdvogadas do Mercosul, Graça Barza;o presidente do Gabinete Português de Leitura, Vicente Miranda; o presidente da Academia Pernambucana de Letras Waldênio Porto e o presidente do Coomeb (Cooperativa dos Médicos do Brasil, Giovanni Rattacaso Filho, têm a honra de convidar para as comemorações do Dia Internacional da Mulher, com o lançamento da6ª edição do livro Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco, de autoria do jornalista Carlos Cavalcante, presidente da Câmara Brasileira de Desenvolvimento Cultural.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Letras Que Induziam a Violência Contra a Mulher



SÉCULO XX

De tudo que ficou gravado no intenso repertório da música popular brasileira do século 20, sem sombra de dúvida, nada há de mais terrível e execrável do que as letras que estimulavam abertamente a violência contra a mulher.
Autores, os mais conceituados, compunham canções exortando – sem dó ou piedade – o cometimento desse ato doloso executado pelo homem como se isso fosse coisa mais banal do mundo.
Durante a pesquisa que fiz para escrever o Livro "A musa sem máscara - Imagem da mulher na música popular brasileira", ao me concentrar bem detalhadamente nessa temática, verifiquei que esse tipo de assunto, quando abordado pelos letristas, fazia o maior sucesso entre o público ouvinte, independente do sexo a que pertencesse.
Basta dar uma espiada, no conjunto musical da música popular, que se destacou nas “paradas de sucesso” por todo o século passado. Encontraremos, facilmente, versos escritos com a nítida intenção de induzir os homens, em geral, a ter atitudes ameaçadoras contra toda mulher, inclusive, aquela que não fazia parte do relacionamento pessoal e social mais imediato de cada homem.
Qualquer uma que ameaçasse o poder que eles detinham na sociedade ficava a mercê de todo tipo de hostilidade, do insulto à agressão física, como se pode observar numa composição de 1920:
"ALIVIA ESTES OLHOS" ou "EU QUERIA SABER"
Samba de J. B. da Silva (Sinhô) Canta: Francisco Alves
Eu queria saber porque é
Que este homem bateu na mulher
Que mulher engraçada e adorada
Que se acostumou com a pancada!
Ai, como é bão querer
Sofrer calada, sem ninguém saber,ai!
Alivia estes olhos pra lá
Que ainda ontem eu fui me rezar
Tenho medo deste olhar
Que procura-me a vida atrasar.
Ai, como é bão querer!
Sofrer calada, sem ninguem saber, ai!

HOMEM QUE AMA BATE EM MULHER?????
QUE HORROR!!!!!!

Já chegando ao final da década de 20 , o mesmo cantor torna a gravar um samba de sua autoria em parceria com Freire Junior, que chegava a ser de um contra-senso de doer e de uma bizarrisse sem conta. Entretanto, de tanto sucesso alcançado, a música saiu gravada em dois selos diferentes. O primeiro intitulado de "Malandro" e o segundo, recebeu o título "Amor de malandro". Além de editada em disco, seu lançamento dava-se, também, no Teatro de Revista, na burleta de Luiz Iglézias que levava o mesmo título. A letra, por sua vez, dispensa maiores análises pela maneira natural com que trata o fato em si: afirmar tamanho despautério que não é nada demais homem bater em mulher. A impressão que se tem é que essa prática contava na época com a aprovação social, pois a letra ficou anos nas paradas de sucesso radofônico.

"MALANDRO" ou "AMOR DE MALANDRO"
1929
de Francisco Alves e Freire Junior
canta Francisco Alves
Vem, vem
Que eu dou tudo a você
Menos vaidade
Tenho vontade
Mais é que não pode ser.
O amor é do malandro, oh meu bem!
Melhor do que ele ninguém
Se ele te bate
É porque gosta de ti
Pois, bater-se em quem não gosta
Eu nunca ví!
MULHER GOSTA DE APANHAR????
AÍ, DIZER TAMANHO DISPARATE, JÁ É MISOGINIA DEMAIS
Pra se ter ideia da concepção coletiva machista na sociedade brasileira é perceber nos conjunto musical do seu repertório, que, não era nada demais, para um cantor extremamente famoso e admirado, interpretar músicas que deixavam entrever um enfoque extremamente machista. Ainda mais, quando chega a cantar em dueto com Célia Zenatti (atriz e cantora de revista, com quem viveu 28 anos) a marcha carnavalesca - "Que m'importa". Nessa música , a dupla exaltava a famosa prédica de que "pancada de amor não doi" e, o que é pior: insinuar, abertamente, pela voz de uma intérprete, que mulher não se importa quando as leva. Atente para os seguintes versos:
"QUE M'IMPORTA"
1931
Macha de Joubert de Carvalho
FA - Estão dizendo que você vai apanhar
CZ - Que m'importa! Que m'importa!
(...)
Cz - O amor o amor
com pancadinha tem até outro sabor ...


Todas essas composições estão claramente contextualizada à conjuntura política da época. É o caso de da música "Dá nela", lançada em 1930. Obteve o primeiro lugar num afamado concurso de música carnavalesca do então Distrito Federal. A referida temática -transcrita por inteiro logo abaixo - enfaticamente, induzia os homens, a espancarem as mulheres apenas com a alegação de que elas estavam falando demais como é de se notar seguindo a letra à risca:

"DÁ NELA"
1930
Autoria: Ary Barroso
Canta: Francisco Alves

Esta mulher
Há muito tempo me provoca
Dá nela!
Dá nela!

É perigosa
Fala mais que pata choca
Dá nela!
Dá nela!

Fala, língua de trapo
Pois da tua boca
Eu não escapo.
Agora deu pra falar abertamente
Dá nela!
Dá nela!

É intrigante
Tem veneno e mata a gente
Dá nela!
Dá nela!


A bem da verdade, o título provocativo da música – que se repetia com o mesmo refrão entre uma frase e outra – tinha uma razão de ser para os conservadores machistas das primeiras décadas do século XX.
Pois, não eram eles defensores ferrenhos de uma sociedade misógina ao extremo, carregada sobremaneira de preconceitos éticos/morais, totalmente desfavoráveis ao desejo de autonomia demonstrado pela mulher nas primeiras décadas do século 20?

E, diga-se de passagem, ainda bem que tal aspiração daquelas nossas antepassadas – ferrenhas ativistas na luta pela emancipação da mulher – não foi em vão, pois
haveremos de convir sem nem pestanejar que por certo, o vozerio das feministas (na época identificadas de sufragistas), configurou-se como um levante muito bem estruturado no que diz respeito à defesa dos direitos das mulheres.
Fato é que, naquele tempo, de tanto o movimento de mulheres botar a boca no trombone, propagando em alto e bom som, suas reivindicações para obter melhoria da qualidade de vida - a toda mulher - no campo educacional, do trabalho (quer dizer - trabalho fora das fronteiras domésticas), liberdade de expressão, posssibilidade concreta de poder ir e vir sem depender da tutela de um ou mais homens.
1º PASSO PARA CONQUISTAR CIDADANIA PLENA
A essa plataforma de luta para obter espaço próprio na esfera pública foram foram sendo incorporadas outras questões relativas a emancipação da mulher e em defesa da igualdade de direitos e deveres que lhe era negado, na relação entre os sexos, de modo que, pudesse contar como um ponto a mais a favor que lhe garantisse alçar à condição de cidadã. Assim, iam as SUFRAGISTAS, anunciando pra quem quer que fosse, suas idéias paradigmáticas onde estava incluída a defesa intransigente do voto para a mulher. Enfim, de tanto falar, falar e falar demais ”que nem pata choca", exprimindo suas razões, argumentando e reivindicando seus direitos políticos, finalmente chegaram ao que queriam.
Em 1932, ganharam o direito de votarem e serem votadas, em todo o território nacional.

Nesse mesmo ano em que as mulheres deram esse passo à frente na conquista da cidadania, a mesma temática falaz pregando a violência contra a mulher vai continuar sendo lançada e editada por inúmeras vezes, sempre caindo no gosto do público ouvinte e alcançando invariavelmente sucesso absoluto, tanto em discos como nos teatros de revista.
Numa das músicas, podemos observar na sua letra, a tentativa do autor, em reproduzir como autêntico e verídico, o chavão sádico, comumente repetido por quase todas as pessoas, de que "mulher gosta de apanhar". Quem sabe, era uma maneira capciosa dele, de tentar justificar o alto índice de agressões dolosas – sem penalidade jurídica alguma – passíveis de acontecer a toda e qualquer mulher.
A letra transcrita na íntegra, também laureada com o primeiro lugar no primeiro concurso oficial de música carnavalesca é de não se acreditar tamanhaafronta que se dirige a alguém


"MULHER DE MALANDRO"
1932
Autoria: Heitor dos Prazeres
Canta: Francisco Alves

Mulher de malandro
Sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha
A ele tem mais amizade.
(Longe dele tem saudade)
Ela briga com o malandro
Enraivecida
Manda ele andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela tem saudade, vai procurar.
(falado - Há um ditado muito certo:
Pancada de amor não dói)
Muitas vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
Perto do malandro se sente bem.
(falado - Êh! meu bem
O malandro também tem seu valor).


Agora pasmem!!!!!
Essa música foi um sucesso estrondoso que ultrapassou décadas sendo executada nas rádios e em outros meios de comunicação musical. Tanto é que, foi regravada no ano de 1987 – em dueto, por Ângela Maria e Caubi Peixoto – para compor uma coletânea de 50 músicas sobre mulher consideradas as melhores do século 20. Entraram na seleção também as famosas e desvirtuadas Ai, que saudade da Amélia e Emília, enaltecidas pelo único e definitivo papel de serviçais domésticas a que estavam submetidas a desempenhar no recinto doméstico.
UM DETALHE IMPORTANTE A SE DESTACAR
O disco patrocinado pelo Banco do Brasil, por mais absurdo que possa parecer, foi em favor da “Campanha do Aleitamento Materno”.

E A PANCADARIA VIRA MODA MUSICAL
Ainda teve no referido carnaval de 1932, o samba enredo da Escola de Samba “Vai como pode”, a atual Portela, escrito e musicado para desfilar naquele ano referindo-se a mesma temáica insidiosa sobre a questão da violência contra a mulher:

"DINHEIRO NÃO HÁ"
1932
Lá vem ela chorando
O que é que ela quer
Pancada não é, eu já dei
Mulher da orgia
Quando começa a chorar
Quer dinheiro
Dinheiro não há
Carinhos eu tenho demais
Pra vender e pra dar
Pancada também
Não pode faltar
Mas dinheiro
Isso não dou a mulher
Faço descer à terra o céu
E as estrelas se ela quiser
Mas dinheiro não há...


Lamartine Babo lançou, também, em 1932, a marcha carnavalesca, onde a letra, seguia o mesmo padrão do espancamento como se fosse essa prática violenta, a coisa mais natural de se fazer à mulher. Nos vários versos, reclamavam as mudanças que estavam acontecendo com relação ao comportamento das mulheres. E, outra vez, insistia o autor, em afiançar, continuadamente, na sua música, qual deveria ser a maneira indicada para conter as mulheres. Quer dizer: quando e lasnão seguiam mais a risca, a cartilha das “boas maneiras femininas”, adotando por conta própria, um outro modo de proceder:
“SÓ DANDO UMA PEDRA NELA”

Mulher de setenta anos
Já cheia de desenganos
Que usa vinte e cinco gramas
De vestido na canela
Só dando com uma pedra nela!
Só dando com uma pedra nela!
Menina que pede esmola
Com um cofre de ferro imenso
Que pede pra Santo Onofre
Pra levar pra São Lourenço
Só dando uma pedra nela!
Só dando uma pedra nela!(...)




Nesse mesmo ano, outras músicas foram lançadas sendo bastante divulgadas, batendo na mesma tecla repulsiva de pancadaria contra a mulher, de maneira a incitar, pelo teor das letras, a violência praticada, usualmente, de vários modos, onde é possível constatar mais versos execráveis, NA VOZ DE CANTORAS:

Mulher indigesta – 1932 – Autoria – Noel Rosa - Canta Aracy de Almeida: Mas que mulher indigesta! Indigesta! Merece um tijolo na testa"(...) O que merece é entrar no açoite(...)
Mulato de qualidade – 1932– Autoria – André Filho – Canta – Carmem Miranda: Eu gosto dele / Porque ele é um mulato de qualidade / Vivo feliz, no meu canto sossegada/ Tenho amor e carinho, oi / Tenho tudo e até pancada(...)
Mas, nem pensar que tamanha insídia musical vai parar por aí. Esse tema continuará a perpassar todo o século 20, haja vista, as letras que coletei antes e depois da década de 30.


quinta-feira, outubro 08, 2009

NÃO PERCAM


EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA, DE 15 A 25 DE OUTUBRO,
NA REPRESENTAÇÃO REGIONAL DO NORDESTE DO MINISTÉRIO DA CULTURA


1000 MULHERES PELA PAZ AO REDOR DO MUNDO
Exposição trará fotos das concorrentes ao Prêmio Nobel da Paz 2005.
São mil rostos que se tornaram ícones na luta pela paz, segurança humana e justiça.


Para o Prêmio Nobel da Paz 2005, a associação suíça Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, com o apoio da Unesco, propôs a indicação de 1000 mulheres que, em 150 países, representavam as lutas contra a violência e a discriminação, contra a opressão e a miséria, em inúmeros espaços e frentes.

O Comitê do Prêmio Nobel 2005 não premiou o coletivo das mulheres, mas a articulação internacional que levou à seleção dos 1000 nomes mobilizou diferentes campos da sociedade, revelando a garra e a diversidade da atuação das indicadas, apesar dos múltiplos empecilhos que encontram no seu dia-a-dia.

Agora, seus rostos estarão fixados nas imagens da Exposição Fotográfica 1000 Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, num convite à continuidade e ao aprofundamento da ação das mulheres e de toda a sociedade na promoção da paz, dos direitos humanos, da justiça e da segurança. A abertura do evento acontece em 15 de outubro, quinta-feira, às 18h30, na Representação Regional do Nordeste do Ministério da Cultura.

No Brasil, a coordenação do processo de mobilização e seleção teve à frente Clara Charf, ativista e militante dos direitos das mulheres de longa e reconhecida história, com o apoio de várias representações do movimento de mulheres, feminista, popular, sindical e da academia. Mais de 300 mulheres foram indicadas por pessoas e organizações do País. Em uma difícil tarefa, a Comissão de Seleção chegou a 52 nomes, notáveis pelas suas lutas e trabalhos nos quilombos, nas aldeias, no campo, em vilarejos, cidades, megalópoles. E seus rostos e perfis são também homenageados na publicação Brasileiras Guerreiras da Paz, cujo lançamento acontecerá no dia da abertura da Exposição.

As iniciativas são uma realização da recém-criada Associação Mulheres pela Paz, presidida por Clara Charf, contam com o patrocínio da Petrobrás, com o apoio da Associação Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo (Suíça), EED (Alemanha) e Fundação Avina, e com as seguintes parcerias locais: SOS CORPO Instituto Feminista para a Democracia, Representação Regional do Nordeste do Ministério da Cultura e Prefeitura do Recife.

Ao difundir as imagens dessas mulheres, a Exposição quer deixá-las fixadas não apenas como “memória”, mas como estímulo, efeito multiplicador do que já se fez e do muito que se há de fazer em todo o mundo, por essas e por milhões de tantas outras mulheres que lutam pela paz., cujo exercício se dá no cotidiano.

Exposição 1000 Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo
Lançamento do livro Brasileiras Guerreiras da Paz
Dia e horário da abertura e lançamento do livro: 15 de outubro, quinta-feira, às 18h30 horas.
Período da exposição: de 15 a 25 de outubro
Local: Representação Regional do Nordeste do Ministério da Cultura (Rua Bom Jesus, 237, Recife Antigo)
Produção Executiva da Exposição no Recife:
MARIA AUREA SANTA CRUZ
e
ISOLDA PEDROSA


ASSOCIAÇÃO MULHERES PELA PAZ

Rua Santa Isabel, 137 – 4º andar – Vila Buarque
01221-010 - São Paulo/SP
Telefax: (11) 3224-9454
Email: associacao@mulherespaz@.org.br
Site: http://www.mulherespaz.org.br/
Presidenta: Clara Charf
Diretora executiva: Vera Vieira
Assistente de direção: Carolina Quesada
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

ASSOCIAÇÃO MULHERES PELA PAZ AO REDOR DO MUNDO

Baerenplatz 2 – P.O. Box 524
CH-3000 Bern 7 – Switzerland
Website: http://www.1000peacewomen.org/
AS MULHERES HOMENAGEADAS DE PERNAMBUCO

Foram cinco (5) as mulheres pernambucanas que foram indicadas para o Prêmio Noel da Paz, com o apoio da UNESCO. Elas ficaram entre as 1000 mulheres dos 150 países por toda a luta incessante que travam pelos Direitos Humanos, Justiça e Paz:

Elzita Santa Cruz – Ativista na área de Direitos Humanos ( mãe de Fernando Santa Cruz – Desaparecido Político (desde 1973, durante a ditadura militar)
Givânia Maria da Silva – Ativista na área Comunidade Rural Quilombola
Lenira Maria de Carvalho – Ativista na área sindical das Trabalhadoras Domésticas
Vanete Almeida – Ativista na área Rural – Coordena a Rede de Mulheres Rurais (RedeLac)
Zenilda Maria de Araújo – Ativista na área de Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste

sexta-feira, setembro 18, 2009

Não basta ser cantora mulher...

A MUSA SEM MÁSCARA

Muitas das "cantoras do rádio" e algumas da atualidade - sem qualquer consciência crítica - emprestaram ou emprestam seus talentos vocais à difusão de canções que depoem contra a imagem da mulher com letras totalmente depreciativas. Evidentemente, isso tudo é porque são, invariavelmente, impulsionadas pelo sucesso alcançado por tais letras e a extensa repercussão alcançada por temáticas desse tipo, perante o grande público a que sempre a música se destinara e que não se tocava ao ouvir mulheres, principalmente, reproduzir ponto de vista, representação, pensamento, idéias, situações ou questões, propositadamente, bruscas, machistas, racistas e misóginas contidas nos versos da narrativa musical .
Vejamos , por exemplo - no período de ouro do rádio - a que ponto chegava a alienação das nossas intérpretes. Basta fazer uma leitura mas acurada das inúmeras letras de músicas gravadas por mulheres - do cast radiofônico - nas décadas de 30 a 50. Veremos, com bastante clareza, que a maioria delas, não tinham critério algum na escolha dos seus repertórios. Principalmente, quando o motivo inspirador dos autores centrava na pessoa da mulher.
Para se ter uma idéia do que estou falando, escolho aqui, uma música de 1950, intitulada "Nega Maluca", autoria de Evaldo Rui e Fernando Lobo. Renato Vivaccqua revela no seu livro Música Popular Brasileira (história da sua gente) que os autores da música e letra fizeram na intenção de entregar para ser gravada por um intérprete homem. Tanto é que, ela foi oferecida a dois cantores, inicialmente. Mas, os dois recusaram-se terminantemente a gravá-la alegando o caráter extremamente depreciativo da personagem mulher. Enfim, terminou sendo lançada na voz de uma cantora.
Agora, prestem toda atenção possível na temática da música, trancrita ipse litere:
Tava jogando sinuca
E uma nega maluca
Me apareceu.
Vinha com o filho no colo
E dizia pro povo
Que o filho era meu:
Meu senhor,
Toma que o filho é seu!
Meu senhor,
Guarda o que Deus lhe deu!
Há tanta gente no mundo
Mas, meu azar é profundo.
Veja você meu irmão,
A bomba estouro na minha mão.
Tudo acontece comigo,
Eu que nem sou do amor.
Até parece castigo,
Ou então, influência da cor.
Facilmente, pode-se detectar que o teor dessa música evidencia um preconceito duplo contra o gênero feminino: primeiramente, o racial discriminador da mulher negra, que a detratava em função da cor da pele(não sei se posso afirmar aqui com tanta certeza que a mulher negra naquelas décadas era mais discriminada e se hoje é menos. Aí fica a duvida cruel: SERÁ!?!?!). O outro preconceito que recaia sobre a mulher em geral e é mais evidente quando se referia a mulher negra, era o preconceito moral, o qual, penalizava a mulher mãe solteira - sem dó nem piedade. Sem contar que, a letra na sua essência, era uma exortação à paternidade irresponsável, tão comum , ainda hoje, ao homem brasileiro.
Continuo em breve

segunda-feira, setembro 14, 2009

Nós Fomos as Cantoras do Rádio

Mulher: a musa inspiradora
No primeiro capítulo do livro que escrevi em 1992, editado pela Rosa dos Tempos e com distribuição exclusiva pela Record eu tratei da questão gênero na MPB ao abordar a ausência da voz da mulher nas letras que falam sobre ela própria.
Leiam mais abaixo o texto transcrito, quase que na íntegra, para depois dizer o que acham.
Qualquer comentário será de grande valia para mim porque estou em processo de pesquisa para o próximo livro onde pretendo continuar esse mesmo tema, só que, revisto, aumentado e atualizado.
Alguns trechos do primeiro capítulo do livro:
"A MUSA SEM MÁSCARA
Imagem da mulher na música popular brasileira"
Parafraseando o compositor popular, "há sempre uma imagem de mulher" a percorrer todo o universo da música popular brasileira. No entanto, até bem pouco tempo, ela aparecia apenas ocupando o papel de musa inspiradora, refletida pelo imaginário masculino que, por sua vez, influencia o imaginário coletivo.
Essa ênfase à "musa" deve-se a uma concepção machista da sociedade, que sempre estabeleceu a criatividade como um privilégio masculino. Para a mulher - em virtude de sua capacidade biológica de reprodução - reservou-se apenas a possibilidade de criar filhos. É com base nesse argumento falacioso, desprovido totalmente de comprovação científica, que os homens determinaram para si a exclusividade da autoria musical. (aqui cabe uma ressalva: essa prerrogativa não foi ou é exclusividade da criação musical). Sempre ocorreu em todas as potencialidades intelectuais da espécie humana, seja no campo das artes, das ciências, da política ou nos empreendimentos produtivos.
Ser cantora, até bem pouco tempo, era o máximo de concessão permitida às mulheres. A voz da mulher foi por muito tempo usada somente para reproduzir um discurso totalmente androcêntrico(masculino, por excelência) portador de uma ideologia sexista, racista, étnica e lesbofóbica. Nem de longe, as composições referentes à mulher vislumbravam qualquer possibilidade de relações igualitárias de gênero e raça. Ao ressaltar - de toda e qualquer maneira - a figura da mulher nas canções, não levavam em conta sua autonomia social. Também, nunca consideravam a possibilidade de desconstruir a narrativa musical hegemônica acerca das relações de gênero, contida indefinidamente nas letras da canção popular brasileira. Fosse qual fosse o momento histórico ou o contexto sócio-econômico-cultural os argumentos depreciativos à mulher, sempre foram uma constante, reiteirando preconceitos de toda ordem, ancorados em uma série de opressão e discriminação.
Compor era uma atividade implícita ao homem. Só ele era considerado mentalmente apto a desenvolver tal atividade artística. A disseminação dessa idéia generalizada que consolida a capacidade intelectual como natural ao homem, só fez contribuir para sustentar o mito da superioridade masculina. Dessa forma se estabelecia uma relação ventríloca entre o "criador (nesse caso o homem) e a "criatura"(mulher). A mulher cantora e musa, fica assim submetida a uma vontade que não é sua, apenas, como objeto e não SUJEITA de sua própria história.
CONTINUA DEPOIS

sábado, agosto 22, 2009

Lei Maria da Penha


ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DE PERNAMBUCO
CIDADANIA - 03/04/2009
Lei Maria da Penha
Marcelo Santa Cruz*


Esse é o nome pelo qual popularmente é conhecida a Lei 11.340/2006. Teve origem, infelizmente, na tragédia de uma cidadã brasileira. Maria da Penha Maia Fernandes, biofarmacêutica, foi vítima de agressões que lhe deixaram seqüelas permanentes; no caso, paraplegia nos membros inferiores. Ela sofreu dois atentados praticados pelo seu marido à época, Marcos Antônio Heredia Viveros, professor universitário. O primeiro foi no dia 29 de maio de 1983. Ele disparou contra a vítima que dormia e depois tentou encobrir o ocorrido, alegando ter havido uma tentativa de roubo na residência do casal. Transcorridas duas semanas, após regressar do hospital, ela sofreu mais um ataque de Marcos Antônio, aproveitando-se da fragilidade da sua condição de convalescente, tentou eletrocutá-la enquanto tomava banho.
Entre a dupla tentativa de homicídio e a prisão do criminoso, seu ex-marido, transcorreu nada menos do que 19 anos e 6 meses, em função dos procedimentos legais e dos instrumentos processuais vigentes na época, que tornavam a Justiça ainda mais morosa do que hoje. Ele foi condenado e cumpriu apenas dois anos e alguns meses de detenção. E este caso não pode, de maneira alguma, ser classificado ôisoladoö. Estudo realizado pelo IBGE, no final de 1980, constatou que 63% das agressões contra as mulheres acontecem no âmbito doméstico, e seus agressores são pessoas com relações pessoais e afetivas com as vítimas. Já a Fundação Perseu Abramo, em estudo efetuado em 2001, constatou que 11% das brasileiras já haviam sido espancadas ao menos uma vez; e destas, 31% nos doze meses anteriores. Isto significava, então, 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano no País. Ou uma a cada quinze segundos.
A Lei Maria da Penha, de 7 de agosto de 2006, foi criada exatamente para tentar coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres, além de agilizar e endurecer as punições. Ela permite que o criminoso apanhado em flagrante seja preso ou tenha sua prisão preventiva decretada. Acabou com o pagamento das penas em dinheiro ou em cestas básicas. Triplicou o tempo de detenção para esse tipo de crime, que costumava ser de três meses a um ano e saltou para seis meses a três anos. E caracterizou a violência psicológica como forma de agressão, além de determinar que as investigações passem a ser mais detalhadas, com depoimentos não só das vítimas e do agressor, mas também de testemunhas.
A Lei ainda contempla medidas de proteção e assistência para mulheres em situação de violência ou com a vida sob ameaça. Elas variam, conforme cada caso, e devem ser determinados pelo Juiz em até 48 horas. Podem incluir a saída do agressor do domicílio, a proibição de sua aproximação física da agredida e dos filhos, até o direito da mulher de rever seus bens e cancelar procurações. Por fim, estabelece medidas de assistência social, como inclusão das mulheres em situação de risco no cadastro de programas assistenciais dos governos federal, estaduais e municipais.
A Lei Maria da Penha é uma proposta inovadora, e por isso mesmo polêmica. Alguns dos seus dispositivos têm recebido severas críticas de juristas conservadores, protagonistas de uma sociedade machista. Há também quem a defenda apaixonadamente. Mas, o que não se discute é que ela resultou de um processo democrático. Representa a transmutação do clamor social em norma jurídica através de um belíssimo processo legislativo, pois houve grande participação popular no seu encaminhamento. Entidades e movimentos sociais se mobilizaram nesse debate, e a própria Maria da Penha se empenhou em fazer do seu drama pessoal uma bandeira de luta a favor das vítimas da violência.
Ressalte-se ainda que o Brasil, ao sancionar a Lei 11340, tornou-se o 18º pais da América Latina a contar com um diploma legal específico que se aplica em casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, o que aumenta a responsabilidade política e jurídica de órgãos públicos, para garantir punição aos agressores. E por meio dela se instituiu a Prevenção e Assistência à Mulher Vítima de Violência (Ministério Público, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública) com suas respectivas competências.
O que foi feito acertadamente e onde se errou, nessa Lei, somente o tempo poderá nos mostrar com segurança. Mas, sem nenhuma dúvida, ela traduz o esforço conjunto da sociedade e das suas instâncias de governo, em busca de uma solução efetiva para um gravíssimo problema social. * Militante dos direitos humanos. Vereador PT-Olinda e Coordenador-Adjunto do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social - CENDHEC